de Joana Cabral
Ela vivia na rua. Da família, algumas lembranças bem desbotadas. Sua rotina era a sua memória. Andava sempre com algum caderno nas mãos e escrevia a vida. Nunca freqüentou a escola; tinha inventado sua própria linguagem entre traços e sinais, que incansavelmente registrava em seu caderno, ou na ausência dele, qualquer pedaço de papel encontrado na rua. Carregava consigo seu cobertor, gostava de dormir no banheiro da rodoviária. Fechava a porta de um dos sanitários e dormia encolhida, protegida da chuva e do frio, dificilmente alguém entrava ali. Quando se sentia muito suja fazia sua higiene no próprio banheiro antes da faxineira entrar e saía para a rua. Não pedia dinheiro para ninguém, ignorava a existência dele. Comia sempre restos que ia encontrando nas lixeiras, às vezes pão, pastéis, ou até mesmo algo jogado fora pelo funcionário do supermercado. Não comia por prazer, não conseguia distinguir o sabor dos alimentos. Por necessidade, alimentava-se, intuitivamente, para acalmar a dor que sentia de vez em quando no estômago. Não sabia onde havia nascido, não tinha documentos, não sentia saudades, nada ansiava. Talvez por isso não sofresse, era só e desconhecia outra forma de viver. Não se comunicava com os outros, não compreendia o que queriam lhe dizer, como se fosse outra língua. Uns falavam com carinho e outros de forma brusca, o que a fazia correr ou simplesmente ficar onde estava. Mas olhava, reparava as pessoas, não entendia suas vidas corridas, e tampouco o motivo de estarem entrando e saindo dos lugares. Vivia por insistência. Às vezes tentava imitar as pessoas e ficava andando de um lado para o outro apressada, com um ar sério, mas bastava qualquer acontecimento, por mais banal que fosse, para distraí-la e voltava a seu devaneio interno, e assim passava o dia, o mês, a estação. Nada acontecendo e tudo girando à sua volta, como se fosse um sol eclipsado, um enigma solto pelas ruas, independente.
Joana Cabral é licenciada em literatura, participou da IV Antologia de Contos de Autores Contemporâneos, publicada em 2005, pela Câmara de Jovens Escritores, Rio de Janeiro. Premiada pela Fundação Cultural Cidade do Recife, no 1º Concurso Osman Lins de Contos, no ano de 2005, com o conto "Banquete Vazio".Adaptou o livro "O Capitão e a Sereia", de André Neves, para o teatro. Projeta para este ano, o lançamento do seu primeiro livro, "Cortina de Cabeças".
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